Para onde foi a alma de Michel Foucault?

Num momento em que tudo vira acusação, será que ainda posso dizer que Michel Foucault foi sadomasoquista, pervertido, subversivo, imoral, um homossexual mal vécue? A literatura biográfica não o livra destas pechas, diz Mark Lilla, em A mente imprudente.

Merece adjetivações como essas quem promoveu anarquia moral e psicológica no campo das ideias, correu atrás de um colega de faculdade com um facão, foi pego de bruços no chão da sala, sem camisa e com o peito todo cortado? Merece quem mesmo doente vivia em saunas e bares e ainda dizia ser belo morrer pelo amor de rapazes, ficava extasiado quando jovens corriam atrás de drogas, de experiências sexuais sem limites? E, finalmente, é digno de tal quem, por fim, morreu de AIDS certamente por ter se entregado de corpo e alma a perversões? Valia a pena na década de oitenta morrer assim na luta contra o poder burguês (religião, moral, ética, riqueza, hierarquia, família, etc.), o considerado vilão dos males sociais? Ora, se Foucault pensava não ter limites e deu seu último suspiro com estes maus olhos, certamente que o céu não foi o seu limite. Se quis ir para o inferno, é tarefa que biógrafos e exus respondem.

Quem vive na injustiça se sente injustiçado, se ofende com certos tipos de fala porque, quem não tem outro motivo, olha para o mundo e vê tudo com maus olhos. Mas o justo é aquele que não se desgarra da fé mesmo quando poderosos o mandam calar a boca.

Mesmo nosso judiciário sendo essencialmente aburguesado, o poder do martelo quer calar pregações religiosas. A ANAJURE – Associação Nacional de Juristas Evangélicos emitiu nota contra decisão que determinou a retirada de circulação de uma pregação em que o pastor fala que lugar de homossexuais, transgêneros, bissexuais, drag queens, é no inferno.

Eis o resumo da fala, da nota da ANAJURE:

Todo homossexual tem uma reserva no inferno, toda lésbica tem uma reserva no inferno, todo transgênero tem uma reserva no inferno, todo bissexual tem uma reserva no inferno, toda drag queen tem uma reserva no inferno. Você, rapaz, que está usando calça apertada, que é um espírito de homossexual, você vai pro inferno. Você, moça, que quando sai da sua casa a sua saia é tão curta e tão apertada, você sabe o que está fazendo? Você tem uma reserva no inferno.

De fato, leitores apressados e com maus olhos enxergam puro ódio nesta fala. Como tudo hoje gira em torno de vitimismos, tal pregação pode parecer preconceito contra homossexuais, quando, na verdade, a fala se dirige contra a prática antinatural do homossexualismo. A palavra de Deus, que é peróla, vira comida de porcos. Quem faz isso? Ora, se nossos olhos são bons tudo será bom.

Claro que o justo, para merecer a qualificação de justo, não fecha os olhos para maldades naqueles que, em vez de pérolas, jogam comida de porcos. Sim, existem exceções nos púlpitos. Pregadores exageram e pintam seres humanos como gente que não presta, num moralismo acusador que só o diabo sabe fazer. Assim agindo, são estes pregadores que fazem das pérolas verdadeiras comidas de porcos.

O que diz a fé cristã a respeito do homossexualismo? Para onde vão homossexuais se morrerem nesta prática? Ora, a resposta não pode ser diferente daquela falada pelo pregador. Se eventualmente pastores erram no tom ao discursar, eles é que vão ter que se ver com Deus, pois Jesus era defensor, não acusador. A liberdade de expressão e de manifestação de pensamento e religiosa é que não podem ser restringidas e pagar o preço por eventuais exageros de um ou outro pregador (quando existirem exageros).

Sergio Renato de Mello é defensor público de Santa Catarina, colunista do Jornal da Cidade Online e Instituto Burke Conservador, autor de obras jurídicas, cristão membro da Igreja Universal do Reino de Deus.

* O conteúdo do texto acima é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: É lei de Deus: maldição contra o justo vira bênção

 

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