Às vezes, sem perceber, nos aprisionamos dentro de uma ideia estreita sobre quem somos e quais possibilidades temos. Passamos a acreditar que a vida só se move quando a motivação nos visita, como se ela fosse uma espécie de vento sagrado que, quando falta, paralisa todas as velas. Assim, esperamos que algo interno desperte para somente então agir. Nessa espera, vamos ficando lentos como um barco sem ventos.
A procrastinação então se disfarça de cuidado, de “não estou com vontade”, de “não me sinto bem agora”, de “não sinto motivação”. Enquanto isso, pequenas tarefas da vida começam a se acumular silenciosamente: a consulta que não se marca, a pia que se enche, o banho adiado, o exercício deixado para um amanhã que não chega. E, sem perceber, vamos nos encolhendo dentro de uma visão mínima de nós mesmos.
É verdade que há dias em que a saúde nos falta, seja no corpo ou na mente, e isso exige pausa, ternura e escuta. Mas na maioria das vezes não é a doença que nos prende, mas é o mito de que o movimento conta somente quando é movido por entusiasmo. Assim, as horas passam, depois os dias, depois as estações e os anos. Quando olhamos ao redor, vemos que continuamos no mesmo ponto do caminho.
Mas, pode ser diferente. Podemos gentilmente desapegar do mito de que só a motivação gera movimento. Podemos agir mesmo sem vontade, como quem acende uma lamparina pequena, mas suficiente para romper a escuridão. É possível sair da cama e dobrar o pijama sem recompensas, marcar o médico sem entusiasmo, lavar a louça sem brilho nos olhos, caminhar com passos cansados, estudar com leve desconforto, e ainda assim avançar.
Nem todo crescimento acontece de forma espetacular. Afinal, a caminhada com Deus frequentemente acontece passo a passo. “A vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Provérbios 4:18).
Assim, mesmo quando a vontade se esconde, um pequeno gesto já desperta um novo gosto pela vida. E, pouco a pouco, aquilo que parecia pesado começa a ganhar leveza. Há uma graça especial nos recomeços discretos.
A vida gosta de movimento, mesmo quando ele nasce tímido. E ao permitir esse pequeno fluxo, descobrimos que já não estamos parados. Mudamos de lugar. E isso, por si só, merece ser celebrado. Enfim, não caminhamos sozinhos. “Porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13). Quando nossas forças parecem pequenas, a graça de Deus continua gentilmente nos conduzindo adiante.
Clarice Ebert (@clariceebert) é psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família). Membro e docente de EIRENE do Brasil.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
Leia o artigo anterior: Flores que nascem em solos improváveis!

